O Propósito do Evangelho de João

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João 20.30, 31

Neste domingo começamos uma nova série de estudos, e desta vez será diferente das outras séries, pois trata-se de um estudo do evangelho de João, e não tem um número fixo de mensagens. Como introdução, estudamos um trecho bíblico quase no final do livro, onde João declara o propósito do seu evangelho: “Jesus realizou na presença dos seus discípulos muitos outros sinais miraculosos, que não estão registrados neste livro. Mas estes foram escritos para que vocês creiam que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus e, crendo, tenham vida em seu nome” (Jo 20:30,31).

Antes de examinar o texto em si, observamos uma lista de palavras e temas que se repetem no evangelho de João; palavras como luz e trevas, amor e ódio, carne e espírito, vida e morte, e entre outras. Ao longo desta nova série, voltaremos e lembraremos destas palavras e destes temas. Na mensagem de domingo, ressaltamos como estes temas organizam a própria declaração do propósito do evangelho:

Jesus realizou (fala da obra de Cristo) na presença dos seus discípulos (o testemunho de testemunhas oculares) muitos outros sinais miraculosos (o evangelho se organiza em volta dos sinais), que não estão registrados neste livro. Mas estes foram escritos (fala da palavra declarada e escrita) para que vocês creiam (o crer é o tema central do livro) que Jesus é o Cristo (fala novamente da obra de Cristo), o Filho de Deus (mostra que Jesus vem de Deus Pai, para fazer Sua vontade) e, crendo (crer), tenham vida em seu nome (a vida eterna é outro tema central).

No seu livro “O Evangelho da Crença”,  o autor Merrill C. Tenney aponta algumas caraterísticas deste evangelho a partir desta declaração de propósito de João:

É um evangelho seletivo. Quando João diz que haviam outros sinais que Jesus fez, mas que ele selecionou alguns para o seu evangelho, ele está declarando que aqueles que ele escolheu registrar bastam para o seu propósito. O que isto diz sobre a importância destes sinais no estudo do evangelho? O que isso nos ensina sobre como nós apresentamos o evangelho para pessoas que não o conhecem?

É um evangelho comprovado. Embora João apresente algumas declarações que ele não sente a necessidade de defender, ele ainda apela para testemunhas oculares destes sinais. O que isso nos ensina sobre a importância da autenticidade do evangelho que apresentamos?

É um evangelho apologético. João tem como propósito convencer os seus leitores de que Jesus é o Cristo, e que pela fé nEle, os leitores podem ter certeza da vida eterna. Discuta com o seu grupo como devemos equilibrar a apresentação convincente do evangelho sem a imposição das nossas crenças.

É um evangelho interpretativo. Ao convencer pessoas que Jesus é o Cristo, João estava atribuindo, pela fé, todas as promessas do Messias dos judeus ao homem Jesus Cristo. Outros podem defender outra história, mas João estava convencido, e queria nos convencer. Você crer verdadeiramente na exclusividade de Cristo para a salvação? Você “prega” isto para outras pessoas?

É um evangelho definitivo. João não apresenta 50 tons de cinza. No seu evangelho, as coisas são claramente pretas ou brancas. Jesus ou é Filho de Deus, ou foi um grande mentiroso. Será que sua vida reflete este tipo de verdade absoluta? Ou você anda com o mundo ao dizer que cada um tem que acreditar no que achar melhor?

É um evangelho eficaz. João tinha certeza de quem colocasse sua fé em Jesus teria a vida eterna. A mensagem dele é simples e direta: acredite e terá a vida eterna. O evangelho que você declara apresenta este tipo de esperança?

Frases como “João escreveu” ou “o propósito de João” podem levar à ideia de que a autoridade deste evangelho vem do discípulo que o escreveu, mas convém lembrar que Deus é o autor principal de toda a Bíblia. Falamos de João pois o reconhecemos como o autor, e nos ajuda a destacar este texto dos textos que Deus inspirou outros a escrever. Mas pensando sobre esta maneira de falar, vamos imaginar como seria…

O Evangelho segundo _____________________ (escreva o seu nome)

Imagine que Deus estivesse começando um novo momento de revelação, e precisava de você como autor humano desta revelação divina. (É apenas um exercício. Ensinamos claramente na IBABI que Deus encerrou a Sua revelação.)

Primeiro, você precisaria de um propósito para o seu evangelho. O que você acha que Deus está demonstrando sobre Jesus Cristo a partir da sua vida?

Que eventos, pessoas, ou coisas Deus poderia selecionar para ressaltar o propósito do seu evangelho? Ou seja, quais destas coisas serviriam para testificar de Jesus na sua vida?

Se Deus fosse falar da sua vida, seriam mais exemplos positivos (como José ou Daniel), ou mais exemplos negativos (como a maioria dos “heróis” bíblicos)? Seria um exemplo a ser seguido, ou um aviso sobre atitudes e ações a serem evitadas?

Nossa leitura bíblica desta semana:

Dia 1

João 1-3

Dia 2

João 4-6

Dia 3

João 7-9

Dia 4

João 10-12

Dia 5

João 13-15

Dia 6

João 16-18

Dia 7

João 19-21

Use palavras: é necessário.

“Pregue o evangelho em todo tempo; se necessário, use palavras”

Sempre que ouvi esta frase atribuída a Francisco de Assis senti que algo estava faltando. A princípio, sempre soa legal, e pessoas adoram citá-la; mas ela parece contrariar ensinamentos bíblicos como:

…a fé vem por ouvir a mensagem, e a mensagem é ouvida mediante a palavra de Cristo.

Romanos 10:17

Por isso fiquei feliz quando achei esta charge que usa o humor para explicar o problema central desta frase.

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Vamos pregar o evangelho, e já que é necessário, usemos palavras!

Traduzido e usado com permissão do autor original. Visite o post original em inglês por meio deste link. Agradeço ao Adam4d pela charge e a permissão para usá-la.

A Lista Definitiva dos Livros que Todo Cristão Deveria Ler

Inspirado pelas listas do tipo “20  [ou 25 ou 30] livros que todo cristão deveria ler”, resolvi entrar nessa e fazer uma lista definitiva. Muitos dos livros indicados neste tipo de lista são boas indicações. Alguns, nem tanto. Mas posso dizer, com toda certeza, que as minhas indicações abaixo são, sem dúvida, os melhores livros escritos para discípulos de Jesus Cristo, e são indispensáveis para qualquer cristão. São 66 livros:

  1. Gênesis
  2. Êxodo
  3. Levítico
  4. Números
  5. Deuteronômio
  6. Josué
  7. Juízes
  8. Rute
  9. 1 Samuel
  10. 2 Samuel
  11. 1 Reis
  12. 2 Reis
  13. 1 Crônicas
  14. 2 Crônicas
  15. Esdras
  16. Neemias
  17. Ester
  18. Salmos
  19. Provérbios
  20. Eclesiastes
  21. Cântico dos Cânticos
  22. Isaías
  23. Jeremias
  24. Lamentações de Jeremias
  25. Ezequiel
  26. Daniel
  27. Oseias
  28. Joel
  29. Amós
  30. Obadias
  31. Jonas
  32. Miqueias
  33. Naum
  34. Habacuque
  35. Sofonias
  36. Ageu
  37. Zacarias
  38. Malaquias
  39. Mateus
  40. Marcos
  41. Lucas
  42. João
  43. Atos dos Apóstolos
  44. Romanos
  45. 1 Coríntios
  46. 2 Coríntios
  47. Gálatas
  48. Efésios
  49. Filipenses
  50. Colossense
  51. 1 Tessalonicenses
  52. 2 Tessalonicenses
  53. 1 Timóteo
  54. 2 Timóteo
  55. Tito
  56. Filemom
  57. Hebreus
  58. Tiago
  59. 1 Pedro
  60. 2 Pedro
  61. 1 João
  62. 2 João
  63. 3 João
  64.  Judas
  65. Apocalipse

Agora, pode parecer banalidade escrever uma lista como esta, mas faço por dois motivos:

1) Sei, por experiência, que muitos—se não a maioria—dos cristãos, nunca leram todos estes livros. E muitos que leram, leram rapidamente, uma única vez, para dizer que leram.

2) Sei, pela Palavra, que somente estes livros vem com essa garantia: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra”. —2 Timóteo 3:16-17

Agora, existem milhares de livros bons para o cristão ler além desses que estão na Bíblia, e certamente tenho, como os criadores destas outras listas, a minha opinião sobre quais seriam de bom proveito para cristãos lerem. Acho, porém, que devemos começar por estes.

Até Quando, Senhor? Salmo 13 e as Frustrações da Vida

Até quando, Senhor? Para sempre te esquecerás de mim?
Até quando esconderás de mim o teu rosto?
Até quando terei inquietações e tristeza no coração dia após dia?
Até quando o meu inimigo triunfará sobre mim?

Olha para mim e responde, Senhor meu Deus.
Ilumina os meus olhos, do contrário dormirei o sono da morte;
os meus inimigos dirão: “Eu o venci”, e os meus adversários festejarão o meu fracasso.

Eu, porém, confio em teu amor; o meu coração exulta em tua salvação.
Quero cantar ao Senhor pelo bem que me tem feito.

—Salmos 13:1-6

Neste domingo estudamos a mensagem do Salmo 13, que expressa a frustração do salmista, e a solução que ele encontra em Deus. O salmo começa com a pergunta “Até quando, Senhor?”, seguido por uma série de sentimentos do salmista. Ele sente que Deus se esqueceu dele, que Ele está escondendo o seu rosto. Ele sente inquietações e tristeza constantes. Ele acha que os seus inimigos estão triunfando sobre ele. Vimos que estes sentimentos de tristeza e de abandono são comuns nos salmos, como também é o sentimento de frustração. A pergunta “até quando?” é expressada pelo menos nove vezes nos salmos. Podemos entender da pergunta do salmista que não é errado sentir isso, nem de expressar este sentimento para Deus, mas devemos fazê-lo com respeito, e sempre deve nos levar às respostas bíblicas.

A frustração do salmista o leva a uma súplica honesta. Ele pede para que Deus o examine (“olha para mim”) e o responda. Pede também sabedoria (“ilumina os meus olhos”). Como falamos, Davi ainda demonstra um certo pessimismo na sua súplica. Ele acha que se Deus não o responder, ele morrerá, e os seus inimigos festejarão a sua derrota. É importante ver, porém, que mesmo com a sua visão negativa da situação, ele está recorrendo a Deus para resolver os seus problemas.

A frustração de Davi e sua súplica honesta o levam a um resultado sobrenatural: ele termina o salmo exaltando a Deus, e cantando sobre o bem que Deus lhe tem feito. Quando ele diz que confia no amor de Deus, ele usa uma palavra que significa o amor de Deus ligado à Sua aliança. É mais do que o amor-sentimento; é o amor-promessa. Para nós, lendo este salmo depois da vinda de Cristo, tanto este amor e a “salvação” têm novos significados. Se o salmista podia cantar do bem que Deus lhe fez, quanto mais nós, que temos a certeza e esperança em Cristo, podemos louvar a Deus?

Este salmo nos dá um exemplo bíblico de como lidar com as circunstâncias da vida: as nossas emoções são válidas, e podem ser expressadas para Deus, contanto que a verdade revelada na Bíblia, e por meio de Cristo, nos levam a glorificar ao Deus que nos fez (e ainda faz) bem.

Falamos que as emoções expressadas por Davi são comuns, e são válidas, mas que elas não podem chegar a nos dominar, ou escravizar. Para muitos, estas emoções—frustração, tristeza, inquietação, temor—não os levam para a cruz. Como disse o autor Francis Schaeffer:

“Uma cultura ou um indivíduo com uma base fraca só poderá aguentar enquanto a pressão sobre ela não for grande demais”.

—Francis Schaeffer,  How Should We Then Live? (Como Devemos Então Viver?)

Para estas pessoas, a vida começa e termina nelas mesmas; não estão seguras na base infinitamente forte e eterna de Cristo, a rocha. Por isso, verão que suas bases só aguentam quando a pressão não for grande demais. É fácil ver que na nossa sociedade, muitos vivem com bases fracas demais para aguentar as pressões da vida.

Aplicação Pessoal

Como está a sua base?

Você se sente frustrado com alguma coisa recentemente? Frustrado com pessoas? Frustrado com Deus e a aparente inação dele?

Sua frustração está sendo causada por algo além do seu controle? Está acontecendo por circunstâncias que você criou, ou é independente de suas ações?

Você tem expressado esta frustração para Deus?

Você tem procurado respostas para a sua situação na Bíblia? A Bíblia trata direta- ou indiretamente do seu problema?

Você tem voltado às coisas que Deus já realizou na sua vida e agradecido pelo “bem que lhe tem feito”?

Aplicação Prática

Quer fazer um exercício prático aplicando esta verdade bíblica? Leia as seguintes perguntas, e escreva as suas respostas numa folha de papel. Use as suas respostas para traçar os passos do salmista: expresse os seus sentimentos, suplique a Deus por sabedoria (respostas bíblicas), louve a Deus pelo o que Ele tem feito em sua vida.

Descreva uma situação em que você sentiu que Deus estava ausente, ou tardio em responder; um momento em que você perguntou “até quando, senhor?”

Você passou pelas inquietações, a tristeza, o medo, ou outras emoções fortes durante este tempo? Descreva o que você sentiu.

Você expressou estas coisas para Deus? ◻︎ Sim ◻︎ Não. O que aconteceu com aquela situação?

Quais são algumas verdades bíblicas, diretas ou indiretas, que falam (ou falaram) à sua situação?

Você tem voltado às coisas que Deus já realizou na sua vida e agradecido pelo “bem que lhe tem feito”? Faça isso agora. Escreva, em forma de oração, agradecendo a Deus pelo bem que Ele tem feito em sua vida.

Não vou falar sobre isso (Os Jogos Vorazes)

Entendo que não há tanta discussão sobre Os Jogos Vorazes aqui no Brasil, mas a pedido de algumas pessoas, ofereço esta tradução do meu post. (Read this post in English.)

Eu planejava surfar na grande onda de discussão e dizer algo sobre Os Jogos Vorazes de Suzanne Collins. Até escrevi as minhas opiniões do livro, junto com alguns comentários dos prós e os contras, etc., mas aí decidi uma coisa: eu não preciso fazer isto. Sem dúvida alguém já produziu algo escrito melhor, e certamente mais lido do que o meu blog. Em vez de comentar sobre o livro (ou o filme), digo isto:

Não há nada de novo.

Em termos de literatura, não há nada novo nesta série de livros. Nada que George Orwell, Aldous Huxley, Anthony Burgess, Ray Bradbury, Philip K. Dick, ou outros mestres da ficção científica já não escreveram que fosse melhor, mais chocante, mais perturbador, ou mais doentio do que a obra de Collins. Até a ideia de usar jovens como tributos em jogos violentos é uma página que ela admite ter tirado direto da mitologia grega. Em termos de violência, não há nada aqui que os videogames e filmes modernos já não superaram, em HD, ou até 3D. E em termos de romance jovem, que a Collins até trata levemente no primeiro livro, não há nada que outras obras já não fizeram.

Então por que as pessoas estão falando tanto sobre isso?

A rapidez com que os jovens de hoje conseguem se comunicar mundialmente tem acelerado também a formação (e passagem rápida) de ondas e manias. Portanto, nem é necessário algo ser muito bom para que um grupo faça muito caso dele via Twitter, Facebook, e outras mídias socias, e de repente, todo mundo está falando dele. O livro de Collins tem as medidas exatas para fazer um livro famoso: temas chocantes (Jovens matando jovens!? Que horror!) e romance adolescente (Ela nem mesmo muda o formato geométrico—é o mesmo triângulo de sempre). Semelhante às séries de Harry Potter e Crepúsculo, ou qualquer outra série parecida, Os Jogos está na moda, ainda mais por causa do lançamento recente do filme.

Eu não vou falar sobre isso.

Como já disse, eu planejei escrever um post sobre isto, mas aí percebi: São Os Jogos Vorazes hoje, mas amanhã vai ser outra coisa. Pessoas cristãs não precisam de sites que informam a sua opinião, e sim de conhecimento bíblico o suficiente para deixar que Deus as informe.

Nos meus dias de seminário, trabalhava num banco como caixa, e ouvi falar dos funcionários da receita federal norte-americana e como lidam com dinheiro falsificado. Contava-se que estas pessoas não estudavam as notas falsas para saberem como eram. Não, em vez disso, estudavam as notas verdadeiras minuciosamente, para conhecê-las tão bem que qualquer nota falsa ficaria óbvia, pois não seria igual às verdadeiras. Nem sei se esta história é verdadeira, mas faz sentido. E minha experiência pessoal confirmou esta ideia. Ao longo do meu tempo como caixa, desenvolvi o hábito de contar dinheiro depositado várias vezes antes de colocá-lo no caixa. Certa vez, enquanto fazia uma segunda contagem, nem olhava para as cinco notas de cem dólares na minha mão. Mas senti que algo não estava certo. Literalmente, senti que havia algo de diferente na textura do papel. O banco não exigia que testássemos cada cédula com a caneta, mas segui o meu instinto, e estava certo. Duas das cinco notas de cem eram falsas. O meu contato habitual com cédulas verdadeiras me ajudou a desenvolver uma percepção inconsciente da diferença entre o dinheiro falso e o verdadeiro.

O ponto que quero ressaltar é que eu não preciso ser um expert dos Os Jogos Vorazes para saber se é bom, ruim, ou outra coisa. Eu preciso ser um expert da verdade de Deus, para que possa reconhecer o positivo e o negativo de qualquer coisa que venha ao meu encontro na vida. Assim poderei discernir se aquilo deve fazer ou não parte da minha vida. Paulo nos exorta, “tudo o que for verdadeiro, tudo o que for nobre, tudo o que for correto, tudo o que for puro, tudo o que for amável, tudo o que for de boa fama, se houver algo de excelente ou digno de louvor, pensem nessas coisas” (Fp 4.8). Se a minha mente e meu coração estão sendo nutridos pela palavra de Deus, e os meus pensamentos estão saturados por estas qualidades, eu deveria reconhecer imediatamente se um livro, uma música, um filme, ou até um pastor, é uma coisa legítima, e digna do meu tempo.

Tem um ditado popular entre evangélicos norte-americanos que diz que discernimento sobre coisas duvidosas é semelhante a comer peixe: “coma a carne, cuspa fora as espinhas”. Ou seja, tire o que é proveitoso, jogue fora o resto. Meu pai, que teve uma infância mais rural, tinha sua prórpia versão: “Quando você anda num pasto, tem que olhar onde pisa”. E sempre ele acrescentava, “Existem pastos tão cheios de estrume, que é melhor nem entrar. Não dá para andar neles sem pisar em alguma coisa”.

Parece-me que os cristãos modernos (ou talvez pós-modernos) estão com uma mania de consumir tudo pela frente, dizendo que vão “cuspir fora as espinhas”, mas, na verdade, poucas espinhas estão sendo cuspidas. Pelos comentários que leio no Facebook e outros sites, cristãos estão enterrados até a cintura em estrume, felizes da vida porque acharam lá, com muito esforço, uma migalha de verdade ou coisa quase boa. Não estão nem procurando espinhas para cuspir—estão correndo atrás do vento.

A verdade de Deus não é um caça ao tesouro no lixão. Em vez de garimpar por algo de valor numa pilha de lixo, seria muito mais útil se buscássemos algo obviamente íntegro e bom. Os cristãos em Corinto discutiram com Paulo, dizendo, “Tudo é permitido”, para o qual ele respondeu, “Mas nem tudo convém”. Retrucaram, “Tudo é permitido”. E ele respondeu, “Mas nem tudo edifica” (1 Co 10.23). Como um grande amigo meu sabiamente falou, precisamos parar de perguntar, “O que há de mal nisso?” e começar a perguntar, “O que há de bom nisso?”

Então, seja Os Jogos Vorazes, ou a próxima coisa que esteja na moda, leia sua Bíblia. Deleite-se nela. Medita nela dia e noite. Assim você evitará os conselhos pecaminosos, a má compania, e o eventual declínio à roda dos escarnecedores, que pecam e se deleitam no pecado. Assim você reconhecerá valores falsificados quando surgirem, pois eles nem se compararão à coisa verdadeira.

Ué, João endoidou de vez?

A primeira carta de João é um guia muito prático de discipulado. Diferente do seu evangelho, que foi escrito “para que vocês creiam que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus e, crendo, tenham vida em seu nome” (Jo 20.31), João escreve esta primeira carta “a vocês que crêem no nome do Filho de Deus, para que vocês saibam que têm a vida eterna” (1 Jo 5.13). João está dizendo, basicamente, “Se você leu o meu evangelho e creu em Jesus, esta carta é o próximo passo”. Esta declaração de propósito é uma de três que se encontram em 1 João. A primeira está no capítulo 1, que diz que ele está escrevendo “para que a nossa alegria seja completa” (v. 4).

Neste post eu queria concentrar na terceira declaração de propósito da carta de João, que está no primeiro versículo do capítulo 2. Diz que João escreveu a carta “para que vocês não pequem”.

Não pequem? João endoidou de vez? Que conversa maluca!

O contexto deste versículo declara que nós somos pecadores (1.8), que já pecamos (1.10), e que vamos pecar novamente (2.1). João não está sendo ingênuo quando declara este propósito: ele entende como as pessoas são. A grande diferença entre João e o cristão pós-moderno é que ele não aceita a mediocridade. Ele não vai sentar e dizer, “Pois é, sou humano. Vou falhar. Deus tem que aceitar isso”. Nos nossos esforços desesperados de nos livrar da escravidão do legalismo, as nossas respostas contemporâneas lançaram o pêndulolá para o outro lado, e nós vemos que chegamos ao ponto de aceitar comportamentos e atitudes inaceitáveis.

O que deu errado? É interessante que o próprio João tratou de duas atitudes chaves que agravam a nossa situação atual: a noção que não há nada de errado (estamos sem pecado), e a noção que não fizemos nada de errado (não temos cometido pecado).

“Tudo azul”.

Ninguém procura uma solução quando não enxerga um problema. Existe um ditado em inglês: se não está quebrado, não conserte. Basta apenas assistir um pouco de televisão para ver que a sociedade tem mudado muito a sua opinião do que certo e o que é errado. Existem comédias que aceitam todo tipo de imoralidade e comportamento tosco como sendo normal. Ou dramas de detetives que expõem o submundo violento e perverso da humanidade, mas que põem a culpa em tudo menos na depravação humana. Ou a paixão atual que a sociedade tem pelos vampiros, lobisomens, e zumbis. Todas apontam para o mal que está no nosso coração. Mas se olharmos mais atentamente, a linha entre o bem e o mal está embaçada. Por trás da máscara do “realismo” este tipo de entretenimento não só aceita, mas leva a audiência a aceitar, toda espécie de ideia claramente contrária a palavra de Deus. Não estamos nem falando das famosas áreas duvidosas; isto é a plena aceitação do errado como sendo normal e razoável. João não deixa dúvidas: “Se afirmarmos que estamos sem pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós” (1 Jo 1:8). O conceito que somos “apenas humanos” e portanto devemos ver nossas falhas como sendo aceitáveis é uma ilusão—estamos mentindo a nós mesmos. Gente, não está tudo azul. Nós estamos completa e irrevogavelmente quebrados (Rm 3.10, 23). Se nós não admitirmos isto, não procuraremos uma solução para o nosso problema.

“Não fiz nada de errado”.

Agora passamos da conta mesmo, pois vamos além de enganar a nós mesmos, e chamamos o próprio Deus de mentiroso (1.10). Não só vivemos na condição de pecador, como somos pecadores incorrigíveis. João declara isto no contexto da confissão de pecados no versículo 9, então inclui a ideia que a confissão só acontecerá se admitirmos o nosso erro. Desde o momento que Adão apontou o dedo para Eva, e Eva para a serpente, o homem tem aperfeiçoado a arte de apontar o dedo para qualquer coisa além dele mesmo. A verdadeira confissão só acontecerá quando nós assumirmos responsabilidade pelo nosso pecado: “Contra ti, só contra ti, pequei e fiz o que tu reprovas, de modo que justa é a tua sentença e tens razão em condenar-me” (Sl 51.4). Não há salvação sem a admissão do pecado; não existe arrependimento sem que viremos as costas para o pecado; não pode haver perdão sem assumirmos a responsabilidade dos nossos pecados.

Mas como saber isto leva a alvo de João que “não pequemos”? Ele desenvolve esta dinâmica ao longo da sua carta, mas podemos resumir assim: “Esta é a mensagem que dele ouvimos e transmitimos a vocês: Deus é luz; nele não há treva alguma” (1 Jo 1:5). Como seguidores de Cristo—aqueles que entenderam a mensagem do evangelho para que “pudessem acreditar”—devemos trilhar um caminho caracterizado por ser completamente contrário ao pecado. Luz e trevas não coexistem numa harmonia bela e tolerante. Leia novamente: “Deus é luz. Nele não há treva alguma. Nada. Zero”. diz João. “Meu alvo, se vocês escutarem, é ajudar vocês a viverem tão próximos à luz que vocês cheguem ao ponto que o pecado não é mais um problema na sua vida. Ou seja, que vocês não pequem.”

“Não pequem”.

Clamamos: “Isso é impossível!”

Ouvimos a resposta de Deus: “Imaginei que vocês falariam isso. Já lhes disse várias vezes, mas vale a pena repetir: ‘Para o homem é impossível, mas para Deus todas as coisas são possíveis'” ((Mt 17.20; 19.26; Mc 10:27; Lc 1:37; 17:1; 18:27).

É hora de arregaçar as mangas, vestir a nossa armadura, e avançar contra os portões do inferno. Temos muitos pecados a não cometer!

Enquanto isso, numa caverna perto do Éden…

Há pouco tempo eu me deu na cabeça imaginar como a nossa civilização seria se o relativismo da nossa era pós-moderna fosse realmente possível. Talvez alguns de vocês pensem, “O quê? Quem pensa assim?” Pelo jeito, eu. Como a vida seria, por exemplo, se ambos os evolucionistas e os criacionistas estivessem certos, e convivessem lado a lado com sua visões opostas? Claro que não daria certo, até mesmo porque as suas “histórias de origem” são bem diferentes: um lado teria que evoluir num ciclo de melhorias constantes ao longo de bilhões de anos, enquanto o outro lado seria criado na perfeição sem pecado, desobedeceria a Deus, e cairia numa montanha russa de altos e baixos à medida que eles se desviassem ou se alinhassem com o plano de Deus para a humanidade.

Mesmo assim, pense um pouco sobre a ideia. Imagine Adão e Eva, o auge da perfeição humana criada, saindo em desgraça do Éden, e dando de cara com um bando de homens da caverna que só recentemente tomaram o passo evolutivo que deu-os a capacidade de andar eretos, e de usar efetivamente o dedão. Posso até ver que aqueles trogloditas, acocorados em cima de um morro, mastigando sua carne crua, observando, maravilhados (e um pouco invejosos), enquanto Adão, sem mais nem menos (mas ainda com “o suor do seu rosto”), corta uma árvore, constrói um abrigo, acende uma fogueira, e passa a viver seu dia a dia fora do Jardim. Estes jovens evolucionistas teriam que ser muito teimosos para observar como Caim domesticou as plantas, ou Abel os rebanhos, ou Tubalcaim conquistou o bronze e ferro, ou Jubal aperfeiçoou instrumentos musicais, e ainda assim se recusarem a aprender estas técnicas porque não se encaixariam no seu cronograma evolutivo! Posso até imaginar os seus adolescentes reclamando: “Mas Pai, os criacionistas fazem todo esse trabalho pesado com ferramentas maneiras de metal! A gente não pode pelo menos emprestar algumas?” O pai retruca, “Fica quieto, e continue afiando essa lança com essa pedra! A gente só vai usar essas ferramentas daqui a alguns milênios! Você nem sabe como era quando eu tinha sua idade…”

Claro que este tipo de exercício mental não muda nada. O relativismo—acreditando que toda crença é igualmente verdadeira—só funciona na teoria, pois quando levamos seus princípios a uma conclusão lógica, duas ideias opostas não podem coexistir. Se evolução é fato, então criação não pode ser, e vice versa. Se uma terceira opção contraditória for fato, então as primeiras duas não podem ser. E as facções continuarão olhando um para o outro, pensando como são tolos, doidos, mal informados, etc., aqueles que aderem àquela posição. Para o evolucionista, libertando-se da escravidão do teísmo é um passo iluminado. Para o criacionista, o “passo iluminado” é ser liberto da escravidão do pecado, e aceitando a mente de Cristo. Eu sei que já fiz a minha escolha.

Sem Vergonha!

(Read this post in English.)

Uma amiga nossa compartilhou um link hoje do noticiário norte-americano Fox News que fala a respeito de imagens pornográficas e ultraviolentas que andam aparecendo no Facebook. Várias pessoas relataram que ficaram envergonhadas ao acessarem a gigantesca rede social, pois tinha parentes por perto quando as imagens apareceram no seu computador. Este exemplo recente ressalta um problema maior na nossa cultura: a falta de vergonha. Os muros que serviam de barreira para proteger os inocentes da linguagem e do comportamento que outrora considerávamos inadequado para o público estão desmoronando. Em alguns lugares, estão caindo em ruínas por falta de cuidado; em outros, estão sendo demolidos por forças sociais—a garotada popular, as celebridades sem inibições, o preletor “iluminado”—destroçados e permitindo a entrada de toda espécie de mal nas situações que antes achávamos seguros.

Antigamente isto era uma coisa que falávamos sobre a TV ou o cinema. Desde o começo do entretenimento na telinha ou no telão, temos visto um declínio da moralidade e do discurso adequado. Profanidade, obscenidade, ódio, vingança, falta de perdão, e mentiras descaradas saturam o entretenimento de hoje. Sexo fora do casamento (o famoso “ficar”, a traição) é tão comum que pessoas se sentem envergonhadas por você quando você se diz contra isto. O comediante Jerry Seinfeld deu fama à expressão “não que tenha algo de errado com isto”, referindo-se ao homossexualismo, mas agora a frase poderia ser o lema da nossa geração em relação a quase tudo. Sei que existe uma solução simples para estas formas de entretenimento—não assisti-las. Infelizmente, como já disse, não é só na mídia que estas barreiras estão desmoronando.

Há alguns anos, estava no aeroporto de uma cidade norte-americana, e escutei, pasmo, a conversa de duas mulheres já adultas (na casa dos quarentas). Uma delas, sem piscar, usou quase todos os palavrões principais do inglês em apenas algumas frases, e outra, sem piscar, aceitou. E ela não estava nervosa! Aparentemente, é assim mesmo que ela falava! E aqui no Brasil, não sei quantas vezes participei de conversas, até com irmãos em Cristo, onde soltou-se um palavrão ou outro naqueles momentos de alta animação. (Dos termos “pô” e “putz”, nem se fala—é comum ouvir isto na conversa de jovens e adultos.) Seja nos Estados Unidos, ou aqui no Brasil, vemos mais e mais exemplos de pessoas que permitem estas formas de discurso e de comportamento em situações sociais que antes eram seguras. É alarmante ver o que as pessoas colocam no Facebook ou no Orkut, tanto nos posts da sua página como os links para outro conteúdo. Pessoas estão publicando coisas que outrora se sentiriam envergonhados de até pensar. E não há censura que nos proteja das pessoas com quem nos deparamos no cotidiano.

Deus perguntou do seu povo o seguinte: “Ficarão eles envergonhados da sua conduta detestável? Não, eles não sentem vergonha alguma, nem mesmo sabem corar” (Jr 6.15; 8.15). No contexto, Deus estava falando de outro pecado, mas o que é poderoso sobre este versículo é a ideia que estas pessoas estavam fazendo algo “detestável” a Deus, e mesmo assim não ficaram envergonhados, e nem ao menos sabiam corar! Completamente sem vergonha!

Será que a situação atual é diferente? Nós estamos expostos. Nossa consciência coletiva social está num beco, ferida e sangrando, se não estiver morta. E  estamos tão acostumados com isto que nem ao menos conseguimos corar. De fato, a vergonha sumiu do nosso meio.

Houve uma época na história humana na qual a falta de vergonha era uma coisa boa. Considere a falta de vergonha de Adão e Eva no Jardim do Éden. Eles estavam completamente—física e espiritualmente—nus; expostos, um diante do outro, e também diante de Deus, e eles “não sentiam vergonha” (Gn 2.25). Quando mudou tudo isto? No momento em que desobedeceram a Deus. Eles viram imediatamente que estavam nus, e se esforçaram para esconder a nudez, tanto um do outro (com roupas), como também de Deus (se escondendo) (Gn 3.6, 7, 10). A verdade é que, agora, na nossa condição atual de pecadores em um mundo amaldiçoado pelo pecado, só existem duas situações nas quais não sentiremos vergonha: quando não temos culpa, ou quando somos tolos o suficiente para não admitir a nossa culpa. Na primeira situação, não sentimos vergonha porque não temos feito nada de errado (Falo de não ter culpa de algum pecado individual específico, e não de pecado no sentido geral. Por exemplo, a pessoa que obedece o limite de velocidade não precisa frear quando vir o radar.) Na segunda situação, simplesmente não nos interessa. É uma tolice, pois agimos como o tolo, que não reconhece a existência de Deus, e portanto não admite que exista alguém a quem deve prestar contas (Sl 14.1).

Vejam só que interessante: Deus, de fato, nos chama para não termos vergonha! É sério—Ele quer que falemos sem vergonha do Seu evangelho (Rm 3.16); que acreditemos nEle sem vergonha (Rm 10.11); que soframos por Ele sem vergonha (1 Pe 4.16); e que acreditemos e esperemos sem vergonha pela volta de Cristo (1 Jo 2.28)! Naturalmente, isto é o primeiro tipo de falta de vergonha—o tipo que procede da falta de culpa. E é necessário acrescentar que esta falta de culpa só vem por meio de Jesus Cristo; somos incapazes de alcançá-la sozinhos. Esta falta de vergonha para qual Deus nos chama não ignora os princípios de Deus, mas as defende! O Seu constante chamado para a santidade, como o Seu plano para oferecer a santidade aos ímpios por meio da fé em Jesus Cristo, é a Sua maneira de nos dar uma vida sem vergonha.

Você se espanta com a falta de vergonha da nossa geração? Então está na hora de responder com uma falta de vergonha santa! Acredite em Deus e Jesus Cristo sem vergonha, espere por Sua volta sem vergonha, proclame Sua mensagem sem vergonha, e até sofra sem vergonha a perseguição daqueles que não aceitam Sua mensagem!

Afinal de contas, esta é a mensagem de Cristo: que, por meio dEle, podemos ser transformados da sem-vergonhice do pecado para a obediência sem vergonha diante de Deus.

“Antes vocês estavam separados de Deus e, em suas mentes, eram inimigos por causa do mau procedimento de vocês.Mas agora ele os reconciliou pelo corpo físico de Cristo, mediante a morte, para apresentá-los diante dele santos, inculpáveis e livres de qualquer acusação…” (Cl 1:21–22)